No velho Casarão – chamado dessa forma não pela
amplitude dos cômodos: estreitos dois quartos, sala, cozinha, banheiro e singela
varanda; mas tão somente pela quantidade de pessoas que abrigava: cerca de
treze no total, fora o pato Tião e o cachorro boludo – todos estavam apreensivos
com a demora de Quinzinho.
Sua
esposa, cândida Laudicéria, já tão acostumada com seus atrasos em dias de
feira, era a que parecia mais inquieta com essa situação. Quinzinho saia toda
quarta devotamente para comprar pescada para o almoço, embrulhava-a em jornal
sob o braço e, para não sucumbir ao calor da volta ao Casarão, incumbia-se de
hidratar seu corpo – com seis copos de Parati.
O resultado era desastroso – e não podia ser de outra forma – os peixes, valendo-se covardemente de um momento de fraqueza do nosso herói, que ensaiava dribles de Garrincha em seu caminhar, escapuliam por entre as brechas daquele jornal molhado e escorregadio, de modo que Quinzinho, por vezes, entregava o jornal vazio para Laudicéria, para seu próprio espanto.
Porém tratava-se de quinta-feira, já havia passado o horário de almoço – como sempre, não haviam comido pescada – e o motivo da saída de Quinzinho era diverso: à tarde, um homem valente, indignado com a surra que seu filho havia tomado de Nelson, o filho mais velho de Quinzinho, fora desafiá-lo a brigar, com direito a peixeira na mão e escarrada de canto de boca.
Quinzinho, com a tranquilidade que só um homem que nasceu em Santo Antônio de Pádua possui, ajeitou as calças com calma, penteou os cabelos, que já ostentavam respeitáveis entradas e foi conversar com o valente. Sumiram.
Deram sete, oito, nove horas da noite e a Laudicéria – provavelmente para evitar um ataque cardíaco – foi atrás de seu marido, ou do que esperava encontrar daquele pobre homem – “homem tão bom!”, pensava ela, “merecia outro destino”.
Ao chegar ao pé sujo do atual final, antigo começo, da Rua da Light, onde hoje atende o Lismar, teve a surpresa de encontrar seu amor aos abraços – talvez quase beijos – com o homem valente que com muito entusiasmo repetia:
– Esse é meu amigo! Esse é meu amigo!
Desferindo potentes tapas com sua mão de pedreiro nas costas magricelas de Quinzinho que, todavia, estavam anestesiadas pelas mais de vinte doses de pinga que havia dividido com o seu promitente algoz.
Ah, o álcool e a sua incrível capacidade de construir novas amizades com a mesma velocidade que desfaz as antigas!
Eu
não sei muito sobre o destino do valente, mas o Quinzinho – que era meu
avô – ao que todos dizem continuou frequentando o mesmo pé sujo, bebendo as
mesmas pingas, nos mesmos copos velhos e sujos de vidro e fazendo amizades novas.
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